Diferencia entre revisiones de «CANUDOS»

De Dicionário de História Cultural de la Iglesía en América Latina
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'''DILERMANDO RAMOS VIEIRA'''

Revisión del 14:09 10 nov 2014

Desaparecido lugarejo baiano, localizado a 410 km de Salvador, Canudos teve suas ruinas submergidas pelas águas da barragem de Cocorobó, construída no final dos anos 60. Não corresponde, portanto, a uma outra Canudos, edificada numa das margens do mesmo açude. O antigo local, entre 1896 e 1897, foi palco de um dos episódios mais sangrentos da história republicana brasileira, o qual mesclou aspirações sociais com piedade religiosa popular. As causas foram múltiplas: de uma parte, a república se impòs em 1889 sem nenhuma participação do povo, adotando depois certas mudanças laicizadoras, que nem sempre eram bem entendidas pelos estratos humildes da sociedade; e doutra parte, o desespero dos deserdados da sorte no nordeste brasileiro facilmente encontrava refúgio no misticismo exaltado.

O clero, entrementes, envolvido como estava na árdua tarefa de reestruturação eclesial, num primeiro momento não parece ter percebido a dimensão do problema, até porque tampouco partilhava da oposição que o longíquo povoado baiano fazia à república leiga. Por isso, ao contrário de muitos fiéis que temiam certas inovações introduzidas, como a lei de registro civil, que abriam a possibilidade da criação de nova carga de impostos, os bispos instavam para que fossem aceitadas. O prelado diocesano de Mariana, Dom Antônio Benevides (1836-1896), fez inclusive publicar uma circular aos 4 de maio de 1889, instruindo todos os católicos a obedecerem-nas. Também seu sucessor, Dom Silvério Gomes Pimenta (1840-1922), em 1920 estimularia o clero a combater o que entendia ser preconceitos populares contra o recenseamento. Na circular que ele emitiu a respeito, argumentava ser o censo “uma obra, que por qualquer lado que se tome, só pode redundar em bem da pátria e proveito de cada um em particular”.[1]

Os esforços do clero para educar os leigos eram bem característicos do ministério pastoral que desenvolviam; a questão era que existia sentida diferença entre os católicos das cidades, mais receptivos, e a maioria da população, que nas primeiras décadas republicanas ainda era majoritariamente agrária. Além disso, os hierarcas nem sempre viam com bons olhos o Catolicismo “rústico” de muitos camponeses, que com sua religiosidade espontânea e carismática, podia dispensar a assistência dos ministros ordenados, colocando em primeiro plano o respeito pelos líderes locais. Isso explica a tendência que tinham de rejeitar os movimentos infensos a qualquer dependência hierárquica, mesmo que profundamente católicos.[2]

A revolta de Canudos foi parte integrante desta incompreensão. O fenômeno começou a ganhar visibilidade ainda nos tempos do Império quando, a partir de 1874, Antônio Vicente Mendes Maciel (1830-1897), vulgo “Antônio Conselheiro”, chegou em Itabaiana, granjeando fama graças ao seu talento de pregador itinerante. Com longas barbas, coberto com uma extravagante túnica de brim azul e trazendo às costas um surrão de couro contendo as Horas Marianas e a Missão Abreviada, por meio de um discurso arrebatado e místico, ele convidava os sertanejos à conversão.

Apenas dois anos depois, em Itapicuru, o delegado local, Francisco Pereira da Assunção, preocupado com o que julgava ser excessos do pregador e dos seus sequazes, requisitou ao chefe da polícia da província, Dr. João Bernardes de Magalhães, que mandasse forças necessárias para contê-los. Em junho do mesmo ano o Conselheiro foi preso e levado para Salvador, mas, por falta de provas consistentes contra sua pessoa, quase em seguida foi colocado em liberdade, retomando a vida de antes. Após um conflito em Masseté, ocorrido no ano de 1893 ele e seus seguidores se fixaram em Canudos, numa fazenda de gado, perto do rio Vaza-Barris, dando origem ao arraial do Belo Monte, que cresceria rapidamente por ser um refúgio dos excluídos do nordeste. A iniciativa, contudo, bem cedo atraiu suspeitas porque seus membros não aceitavam certas medidas introduzidas pela republica, tais como o casamento civil, a liberdade de culto e a secularização do Estado.[3]

Também neste caso o clero não se alinhou às propostas do arraial. Os hierarcas estavam ao par de que Antônio Conselheiro não fundara uma seita, não fazia milagres, não contestava nem a moral nem a doutrina católica, não era curandeiro, não se dizia enviado de Deus e muito menos usurpara funções sacerdotais, mas, isso não foi suficiente para granjeasse simpatia. As razões eram as mesmas do tempo do Império, já manifestadas com clareza por Dom Luís Antônio dos Santos (1817-1891), Arcebispo de Salvador, numa circular editada por ele editada aos 16 de fevereiro de 1882: “Visto como, competindo na Igreja Católica, somente aos ministros da religião, a missão santa de doutrinar os povos, um secular, quem quer que ele seja, ainda quando muito instruído e virtuoso, não tem autoridade para exercê-la”.[4]

Além disso, no dia 11 de junho de 1887, Dom Luís dissera que a pregação do “Conselheiro” era eivada de doutrinas subversivas, tendo também escrito a João Capistrano Bandeira de Melo (1811-1881), Presidente da província da Bahia de 1886 a 1888, solicitando-lhe que o mencionado pregador, a quem a quem acusava de sofrer de monomania religiosa, fosse recolhido no hospício de alienados Pedro II do Rio de Janeiro. Dito hospício, porém, não dispunha de lugar disponível, e isso levou o Arcebispo a ordenar a todos os párocos de não autorizarem a atuação do “Conselheiro” nos ambientes das paróquias.[5]

Outro prelado que também se posicionou contra o que estava acontecendo foi Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti (1850-1930). Ele teceu a respeito de Canudos uma crítica severa: “Isso não está nem pode estar de acordo com os ensinamentos da teologia católica. Sem sombra de dúvida […] o ridículo é ali (em Canudos) a característica predominante. Portanto, nada lá existe de divino”.[6]

Tal espírito de prevenção colaborou para o fracasso da visita pastoral feita por dois frades capuchinhos ao arraial, no ano de 1895. A iniciativa partira do Governador da Bahia, Dr. Joaquim Manoel Rodrigues Lima (1845-1903), que entrou em acordo com o novo Arcebispo de Salvador, Dom Jerônimo Thomé da Silva (1849-1924), procurando uma solução religiosa para o conflito armado que já se preanunciava. Desses colóquios ficou acertada a ida ao Belo Monte do frei João Evangelista do Monte Marciano (1843-1921) numa missão para chamar o “Conselheiro” e seus asseclas aos deveres de católicos e cidadãos.

Munido de faculdades e poderes especiais o frade partiu no dia 26 de abril, levando consigo fr. Caetano de S. Leo. Chegaram ao arraial no dia 13 de maio seguinte e se alojaram na casa do vigário de Cumbe que há um ano não pisava lá, desde que, como sustentava, sofrera grande desacato. Refeitos um pouco da viagem, os dois frades se dirigiram à capela onde estava o Conselheiro, assistindo aos trabalhos da construção. Frei João saudou-o, e se retirou com ele para o coro, onde lhe comunicou que o fim porque viera era todo de paz; mas, sem o devido tato, logo acrescentou que, em nome do Arcebispo, na sua missão iria aconselhar o povo a dispersar-se e voltar para seus lares.

Enquanto ele falava, a capela e o coro se encheram de gente, que o interromperam aos brados gritando que queriam acompanhar o “Conselheiro”. O pregador fez um sinal para que o povo se calasse, e explicou para o frade que as pessoas armadas que ele via estavam ali para defendê-lo, e justificou sua posição afirmando, que no tempo da Monarquia se deixara prender, porque reconhecia o Governo; mas que naquele momento não, porque não reconhecia a República. Frei João não se conteve: “Senhor, se é católico, deve considerar que a Igreja condena revoltas, e, acatando todas as formas de Governo, ensina que os poderes constituídos regem os povos em nome de Deus. É assim em toda parte. A França, que é uma das principais nações da Europa, foi monarquia por muitos séculos; mas, há mais de vinte anos é República: e todo o povo, sem exceção dos monarquistas de lá, obedece às autoridades e leis do Governo. Nós mesmos, aqui no Brasil, a principiar dos bispos até ao último católico, reconhecemos o Governo atual. Somente vós não quereis vos sujeitar? É mau pensar esse, é uma doutrina errada a vossa”.[7]

Os presentes se exaltaram, e de novo o “Conselheiro” lhes impôs silêncio. Isto posto, com admirável calma, respondeu que não desarmaria sua gente, mas que tampouco estorvaria a missão. O capuchinho acabou desistindo e saiu do recinto, enquanto os sertanejos davam estrondosos vivas à Santíssima Trindade, ao Bom Jesus, ao Divino Espírito Santo, e a Antônio Conselheiro. Apesar dos desentendimentos iniciais, os religiosos celebrariam nos dias sucessivos 55 casamentos de amancebados, 102 batismos e ouviram mais de 400 confissões. Não desistiram, porém, de pregar a defesa da autoridade, sendo acusados por isso de serem protestantes, maçons e republicanos.

A oposição dos moradores à sua presença cresceu, se transformando num protesto geral e estrepitoso ao chegar o dia 20 de maio. Os capuchinhos acharam que as suas prerrogativas presbiterais estavam sendo ofendidas, e deram o trabalho por encerrado. Antônio Conselheiro ainda mandou uma comissão para pedir que continuassem, afirmando que os inocentes não deviam sofrer pelos culpados, nem o povo de Canudos devia ser privado dos benefícios espirituais, que só no final da missão se lucravam. Frei João disse que viu ali apenas manha e fraqueza, e partiu com seu confrade, sem mais aquela. Além disso, no relatório que elaborou a respeito, e que seria repassado ao presidente do estado da Bahia, ele recomendou medidas repressivas contra o arraial: “Pode-se dizer que aquilo é um estado no estado no estado: ali não são aceitas as leis, não são reconhecidas as autoridades, não é admitido à circulação o próprio dinheiro da República. […] O desagravo da religião e a dignidade do poder civil pedem uma providência que restabeleça no povoado de Canudos a prestígio da lei, as garantias do culto católico e os nossos foros de país civilizado”.[8]

Eliminada a solução religiosa, era apenas questão de tempo para que a situação evoluisse para a querela armada, coisa que realmente aconteceu pouco depois, ainda que a iniciativa não tenha partido de Canudos. O estopim foi a atitude assumida por comerciantes inescrupulosos de Juazeiro-BA, que não entregaram madeiras que os habitantes do arraial haviam comprado para a nova igreja que estavam construindo, e ainda alarmaram a região. Militares foram enviados para controlar os sertanejos pela força, mas terminaram derrotados, e somente na quarta e mais poderosa expedição, coordenada pelo próprio ministro da guerra do Presidente Prudente de Morais (1841-1902), Marechal Carlos Machado Bittencourt (1840-1897), a resistência dos sertanejos seria batida.

Sob o comando do general Arthur Oscar de Andrade Guimarães, um contingente de quase 6.000 combatentes atacou o arraial em duas frentes: o general João da Silva Barbosa pelos lados da cidade de Monte Santo e o general Cláudio do Amaral Savaget pela parte de Sergipe e Geremoabo. Famintos, sedentos, esfarrapados, mas com grande número de armas e munições apreendidas das expedições anteriores, além dum notável conhecimento do terreno em que agiam, um número aproximado de 8.000 sertanejos ofereceu uma resistência desesperada às tropas federais. “Conselheiro” faleceu de morte natural no dia 22 de setembro, antes do desfecho derradeiro.

As tropas do Governo, após reiterados ataques secundados pela artilharia pesada, conseguiram cercar o povoado, iniciando a investida conclusiva no dia 30 do mesmo mês. Aos 5 de outubro de 1897, o que restava do arraial foi dado às chamas pelos soldados, enquanto que vários sertanejos aprisionados durante a luta terminaram sumariamente degolados. Pouco, no entanto, havia para se comemorar com a vitória sangrenta, pois calcula-se que o número dos militares caídos em combate tenha atingido a casa dos 4.000. Euclides da Cunha (1866-1909), que lá estava, como correspondente do jornal O Estado de São Paulo, imortalizou na obra Os Sertões, o trágico final: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”.[9]

As milhares de vítimas resultantes obrigou o Brasil da “belle époque” a fazer as contas consigo próprio, por desnudar de forma brutal a outra face de um país de excluídos e não enquadrado na retórica oficial – eclesiástica inclusa. De outra feita, o parecer de frei João Evangelista foi habilmente utilizado como chave interpretativa do acontecido. Além dele haver sido impresso e espalhado pelo país, em 1897, o novo presidente estadual da Bahia, Luiz Viana (1846-1920), diria que dito relatório, por ele qualificado de importante, era um “documento para ser lido e meditado no momento de serem julgados os atuais acontecimentos”.[10]

Outro fato que se evidenciou durante a luta foi a crescente aproximação do clero com a República laica. Tanto é verdade que os beneditinos durante a contenda, se de uma parte se viram forçados a ceder o mosteiro de Brotas para abrigar as tropas em trânsito,[11]doutra – e isso seria citado depois na literatura da Ordem como obra de benemerência –, em 1897 colocaram o mosteiro que tinham em Salvador à disposição dos poderes públicos, arcando com seus próprios recursos nos trabalhos de adaptação do ambiente monástico em enfermarias. Além disso, em visível contraste com a atitude assumida pelos capuchinhos no arraial, os enfermos recolhidos ali tiveram também toda assistência espiritual.[12]

NOTAS

  1. JOAQUIM SILVÉRIO DE SOUZA, Vida de Dom Silvério Gomes Pimenta, Escolas Profissionais do Liceu Sagrado Coração de Jesus, São Paulo 1927, pp. 82, 342.
  2. Cf. BÓRIS FAUSTO ET ALII, O Brasil Republicano, vol. II, 3ª ed., Difel, São Paulo 1985, p. 325.
  3. GABRIEL MANZANO FILHO ET ALII, 100 anos de República, vol. I, Nova Cultural, São Paulo 1989, p. 27.
  4. AAEESS., “Sobre o movimento anti-religioso dos bandos de fanáticos no estado da Bahia”, em: Brasil, fasc. 75, pos. 476, fl. 47.
  5. AAEESS., “Sobre o movimento anti-religioso dos bandos de fanáticos no estado da Bahia”, em: Brasil, fasc. 75, pos. 476, fl. 45b.
  6. BÓRIS FAUSTO ET ALII, O Brasil Republicano, vol. II, p. 123.
  7. AAEESS, Relatório apresentado pelo Reverendo frei João Evangelista do Monte Marciano ao Arcebispado da Bahia sobre Antônio Conselheiro e seu séqüito no arraial de Canudos, Tipografia do Correio de Notícias, Bahia 1895, pp. 3 – 4.
  8. JOÃO EVANGELISTA DO MONTE MARCIANO, Relatório apresentado pelo Reverendo frei João Evangelista do Monte Marciano ao Arcebispo da Bahia sobre Antônio Conselheiro e seu séqüito no arraial de Canudos, Tipografia do Correio de Notícias, Bahia 1895, pp. 3 - 8.
  9. EUCLIDES DA CUNHA, Os Sertões, Editora Paulo de Azevedo, Rio de Janeiro 1968, p. 458.
  10. LUIZ VIANA, Mensagem do Governador da Bahia ao Sr. Presidente da República sobre os antecedentes e ocorrências das expedições contra Antônio Conselheiro e seus sequazes, Tipografia do Correio de Notícias, Bahia 1897, p. 4.
  11. MICHAEL EMÍLIO SCHERER, Frei Domingos da Transfiguração Machado, Edições Lumen Christi, Rio de Janeiro 1980, p. 92.
  12. JOAQUIM G. DE LUNA, Os monges Beneditinos no Brasil, Edições Lumen Christi, Rio de Janeiro 1947, p. 95.


DILERMANDO RAMOS VIEIRA